Personagem de Harry Potter representa metáfora incomum de nossa relação com o mundo
Marcello Castilho Avellar - EM Cultura
Alan Rickman em Harry Potter e a Ordem da Fênix: retrato de um herói cruel
Dia 17, a primeira parte do filme Harry Potter e as relíquias da morte, adaptado do livro homônimo de J. K. Rowling, inicia sua temporada de estreias mundo afora – no Brasil, o lançamento está previsto para dia 19. O público terá, então, oportunidade de reencontrar um intérprete magnífico, Alan Rickman, em papel que muitos não julgavam à sua altura quando ele começou a interpretá-lo, há quase uma década, em Harry Potter e a pedra filosofal.
Como nos capítulos anteriores da série, Rickman é Severo Snape, o professor que o bruxinho Harry Potter mais detesta e teme. Trata-se de escolha pessoal da autora quando os direitos de filmagem dos livros foram negociados com a Warner Bros, distribuidora da película. O ator foi um dos dois membros do elenco que tiveram a chance de ter conversas privadas com J. K. Rowling sobre o destino de suas personagens. O outro é Ralph Fiennes, que interpreta o vilão Voldemort.
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O apoio da autora à escolha de Rickman, intérprete extremamente capaz na representação de contradições e ambiguidades, e a antecipação do destino de sua personagem na trama acabam falando da importância que J. K. Rowling atribui a Severo Snape. Não é para menos. Trata-se de sua melhor criação. Mais que isso: em sua complexidade, é criação rara, principalmente no que se refere à literatura para crianças e adolescentes. Se temos uma informação que nos garante que a autora já havia planejado, pelo menos em linhas gerais, os sete livros da série quando começou a escrever Harry Potter e a pedra filosofal, ela está exatamente na complexidade de Snape.
O livro que apresentou aos leitores a primeira história do bruxinho é povoado por personagens planas. Todos podem ter seus conflitos, mas esses resultam de características que, em cada uma delas, caminham por inteiro numa direção. Harry é bom, ousado, imprudente e companheiro, por exemplo. Tudo isso caminha junto para definir suas ações. Dumbledore, o diretor de Hogwarts, é sábio, bonachão, protetor. Todas as outras personagens do livro poderiam ser definidas assim por poucos adjetivos que são coerentes, parecem combinar uns com os outros. Nos volumes seguintes, veremos algumas personagens se tornarem mais complexas. Descobriremos, por exemplo, a agressividade adolescente de Harry e seus amigos, ou seremos confrontados às culpas de Dumbledore.
PROTETOR
Snape é a exceção à regra de A pedra filosofal: ao longo do livro, seremos confrontados ao fato de ser alguém que já integrou as fileiras do mal, mas protege Harry Potter, o principal perigo para o senhor do mal Voldemort. Pessoa extremamente desagradável, Snape se ocupa de seus alunos mais que qualquer outro professor da escola. É visto pela maioria como bruxo não confiável, mas o único que acreditamos ter alguma visão global de toda a trama, Dumbledore, confia quase cegamente nele.
J. K. Rowling consuma a narrativa da história de Severo Snape no melhor capítulo de toda a série, “A história do Príncipe”, um dos episódios finais de As relíquias da morte. Snape foi traído por Voldemort. Às portas da morte, retira de sua mente duas categorias de memória, que devem ser vistas por Harry Potter. A primeira se refere às informações que podem dar ao jovem herói a compreensão necessária para derrotar o inimigo. A segunda remete Harry e os leitores ao conhecimento da verdade sobre o próprio Snape.
Em “A história do Príncipe”, assistimos, juntamente com o jovem herói, a todas aquelas memórias. Somos subitamente confrontados ao fato de que a narrativa que havíamos lido até então era completamente fragmentária. Deixamos passar questões importantes para termos na cabeça o quadro completo da trama. Acima de tudo, julgamos pessoas e atribuímos valores a ações mais a partir de preconceitos e menos a partir de informações. A soma dessas três constatações acaba tendo um efeito colateral em nossa relação com a trama: todas nos equiparam a Voldemort, e não a nossos heróis Harry, Dumbledore e – como agora sabemos – Severo Snape.
“A história do Príncipe”, em sua relação com o conjunto da saga de Harry Potter, acaba sendo metáfora incomum de nossa relação com o mundo: lembra-nos de que, fora do conhecimento, a realidade é fragmentária, e na fragmentação tende a ser intolerante, conservadora e violenta. É o conhecimento que dá unidade ao real, tornando-o bom, belo, justo e pacífico.
Esse capítulo vale por todo um romance. Qualquer narrativa que tenha o mistério entre seus fundamentos precisa de uma espécie de fulcro, uma história dentro da história, e a solidez do conjunto depende de sua consistência. Na narrativa de mistério policial, esse fulcro se situa, em geral, num dos últimos capítulos – é o momento em que o detetive resume os fatos, descarta as interpretações erradas a respeito dele e, depois de colocar cada coisa em seu lugar, aponta criminoso, motivo e método.
ANÉIS
A narrativa de suspense e aventura tem mais liberdade para situar esse episódio. Em O senhor dos anéis, por exemplo, J. R. R. Tolkien o materializa no segundo livro de A sociedade do anel: é O conselho de Elrond, em que são dadas, ao herói Frodo Baggins e ao leitor, as informações sobre a verdadeira natureza do anel de Sauron e as perspectivas de vitória sobre este senhor do mal.
Funcionalmente, “A história do Príncipe” se assemelha a O conselho de Elrond: amarra por completo a narrativa, tanto a que já vimos quanto a que ainda vamos ler. No romance policial, essa segunda função não é necessária, pois a trama se consuma na revelação, enquanto na aventura a revelação é apenas um ponto de partida para o clímax.
Parte da força desses episódios fulcrais vem de seu conteúdo afetivo. Em O senhor dos anéis, está naquele momento em que Frodo é confrontado com a imensidão de sua tarefa. Em Harry Potter e as relíquias da morte, se o jovem herói, ao perceber seu caminho daí para a frente, descobre uma inesperada serenidade, o leitor é confrontado, na verdade sobre Severo Snape, a um novo aspecto dramático da história. Grande drama, aliás. A história de Snape é marcada, acima de tudo, pela intensidade de sua paixão pela mãe de Harry, Lillian, e pela culpa de ter sido parcialmente responsável por sua morte. Na relação com Harry, lembranças se chocam: o ódio por Tiago, pai do menino, o amor por Lillian, o fascínio pelo talento do garoto (que Dumbledore insiste em recordar), o desprezo por seu desrespeito a certos valores como a disciplina.
Snape é herói incomum: cruel, mas altruísta; preconceituoso nas convicções, mas tolerante nas ações; egoísta, mas sempre pronto ao sacrifício. J. K. Rowling nos presenteou, em Severo Snape, com uma boa representação do ser humano: sempre falível, mas sempre em busca da redenção.
Realmente Severo é o personagem mais denso da trama. Dumbledore, por outro lado, é quase um narrador na história.
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